sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

O nosso mal

A amabilidade do povo brasileiro à ação governamental é o maior obstáculo ao desenvolvimento do País. Não pensem que estou exagerando. A fé cega posta nas autoridades públicas faz que a massa popular, tão necessitada de serviços de qualidade, recorra ao onipotente e todo-poderoso Estado. De fato, muitas funções que deveriam ser nossas o governo arrogou a si, transformando uma multidão de indivíduos autodeterminados em outra formada por mendigos débeis e diminuída diante do gigantismo estatal.

Em verdade, o “brazilian way of life” sempre foi baseado nos velhos bordões para a solução de nossos problemas: “Se o governo fizesse...”, “Se o governo quisesse investir...”, “Se os políticos se interessassem...”. Esse pensamento de extrema vinculação do Estado a todas as necessidades básicas é a verdadeira rocha matriz das máculas nacionais. Um povo que espera tudo de seu governo tende a receber pouco. Como bem destaca a jornalista Rachel Sheherazade, em seu livro “O Brasil Tem Cura”, os brasileiros têm uma fortíssima “[...] tendência ao paternalismo. Obedientes, submissos, subalternos, durante mais de trezentos anos fomos colônia do reino de Portugal, subservientes a seus interesses, sujeitos à exploração e dele dependentes. Até hoje, nos orgulhamos de nossa condição de tutelados, talvez até inconscientemente. Mesmo transcorridos quase dois séculos do “grito de independência”, ainda não conseguimos andar com as próprias pernas. Somos cidadãos sujeitos a um Estado gigantesco, intromissor, castrador e paternalista.”

            Por outro lado, se há uma intensa dependência dos cidadãos ao majestoso Governo, ainda existem indivíduos iluminados que persistem e resistem a esse estigma. Um caso recente, por exemplo, ocorrido em março deste ano, é o dos moradores do município de Vicente Pires no Distrito Federal. Os ditos moradores tiveram a petulância, desfaçatez e ousadia de não esperar pela Prefeitura para tapar meros buracos nas ruas. Que arrogância, não? Segundo a reportagem do site G1, o idealizador dessa ação, o presidente da Associação de Moradores de Vicente Pires, Geraldo Camargos esperava elogios e o reconhecimento da administração.” Ora, certamente, o reconhecimento veio: “’Ontem à tarde recebemos a polícia em casa com a intimação’”. Isso mesmo! A administração local prestou queixa contra os moradores por agirem da forma certa; por ousarem fazer, por si mesmos, o que o governo se comprometera a fazer e não cumprira. Com isso, aprendemos uma lição: quando o cidadão quer fazer algo independente do paternalismo público, acaba sendo punido pela “Justiça”. É como uma infidelidade em um casamento falido, e o Estado não aceitará um divórcio tão facilmente, afinal, quem arcaria com impostos e regulamentações para sustentar a burocracia estatal? Nesse contrato social “à brasileira”, infelizmente, o povo apenas perde, e o pior, paga caríssimo por isso.

Fontes:
http://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/2015/03/administracao-presta-queixa-apos-moradores-taparem-buracos-no-df.html

O Brasil tem Cura. SHEHERAZADE, Rachel. 2015.


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